domingo, 5 de março de 2023

Revolução Russa



Em 1917, a Revolução Russa instituiu o primeiro estado socialista do mundo. Para alguns, essa revolução representou a esperança de mudanças profundas na sociedade. Para outros, foi uma ameaça à liberdade individual e à democracia. Os processos históricos dificilmente têm o mesmo significado para todas as pessoas. Isso porque eles são interpretados com base em diferentes perspectivas, interesses e fontes. Neste capítulo, veremos algumas interpretações a respeito da Revolução Russa.

Revolução russa de 1917
Trabalhador soviético famoso do monumento e mulher de Kolkhoz (mulher coletiva da exploração agrícola) do escultor Vera Mukhina em Moscovo, Rússia. Feito de aço inoxidável em 1937



Império Russo

O Império Russo (1721-1917) tinha um território de 22,4 milhões de km², ocupando parte da Europa e da Ásia. Em 1914, calcula-se que viviam nesse império mais de 150 milhões de pessoas. Era uma população formada por diferentes etnias, cada qual com sua língua e suas tradições.

Revolução russa de 1971
Fonte: elaborado com base em DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2006. p. 149. 


Governo dos czares 

No começo do século XX, a maioria dos países europeus adotava regimes políticos liberais. O Império Russo, porém, mantinha uma monarquia absolutista, comandada por um czar. Em russo, czar significa “césar”, que era o título dos imperadores romanos da Antiguidade. 

A Rússia foi governada por czares do século XVI até 1917. O czar centralizava o poder político e governava com o apoio da nobreza rural, que era proprietária da maior parte das terras cultiváveis do império. Era sobretudo das famílias da nobreza rural que saíam os principais funcionários do governo, os oficiais do exército e os membros do alto clero da Igreja ortodoxa. Além desses grupos, camponeses proprietários (os kulaks) e, posteriormente, alguns industriais também davam apoio político à monarquia absolutista russa. 

Economia e sociedade 

Durante o império, a economia russa era predominantemente agrícola, destacando-se na produção de trigo e de outros cereais. Estima-se que cerca de 80% da população era formada por camponeses (mujiques). A maioria desses camponeses era pobre e submetida a um regime de trabalho servil. Em 1861 a servidão foi abolida, mas as condições de vida dos camponeses não melhoraram. 

O império começou a se industrializar durante o governo do czar Nicolau II, entre 1894 e 1917. A instalação de fábricas foi financiada com dinheiro vindo da França, da Alemanha e da Bélgica. Os investimentos se concentraram em centros urbanos populosos, como São Petersburgo, Moscou, Odessa e Kiev, onde também se formou um operariado de aproximadamente 3 milhões de pessoas. 

Em geral, os operários trabalhavam mais de 12 horas por dia, recebiam salários miseráveis e sofriam maus-tratos. Além disso, tinham alimentação e moradias precárias. Diante dessa opressão social, os trabalhadores rurais e urbanos reagiram, criando entidades inspiradas em ideais anarquistas e socialistas.

revolução russa de 1917
Camponesas juntando feno em campo próximo a Moscou, c. 1900. Fotografia colorizada. Coleção particular.



revolução russa de 1917
Fotografia do czar Nicolau II junto aos operários de uma das maiores fábricas de munições do Império Russo por volta de 1914, durante a Primeira Guerra Mundial. 



revolução russa de 1917 soldados
Tropas russas são recebidas com flores ao chegar em Marselha, França, para lutar durante a Primeira Guerra Mundial. Fotografia de 1916.




Oposição ao czarismo

No final do século XIX surgiram grupos de oposição à monarquia absolutista do czar. Entre esses grupos, destacou-se o Partido Operário Social-Democrata


Fundado em 1898. Esse partido se inspirava no marxismo, isto é, no conjunto de ideias desenvolvidas por Karl Marx (1818-1883). Desde sua fundação, existiam divergências no partido sobre a forma de organizar a luta contra o czarismo. Em 1903, as divergências levaram os membros do Partido Operário Social- -Democrata a se dividir em dois grupos: mencheviques e bolcheviques.

Os mencheviques (minoria), liderados por Georgi Plekhanov (1856-1918), defendiam que os trabalhadores poderiam conquistar o poder fazendo alianças políticas com a burguesia liberal. Os bolcheviques (maioria), liderados por Vladimir Ulianov, conhecido como Lenin (1879-1924), defendiam que os trabalhadores deveriam conquistar o poder por meio da luta revolucionária, derrubando a monarquia para formar uma ditadura do proletariado

Revolta de 1905

Em 1904, os russos entraram em guerra contra os japoneses em razão da disputa por territórios na Ásia, como a região da Manchúria e a da Coreia. Os russos foram derrotados, sobretudo, em função de sua frota ultrapassada e de uma série de revoltas contra o regime czarista. Essas revoltas contaram com a participação ativa de líderes mencheviques e bolcheviques. Em 22 de janeiro de 1905, uma multidão caminhou em direção ao Palácio do Czar, em São Petersburgo, com o objetivo de entregar um abaixo-assinado reivindicando uma reforma agrária, o fim da censura e melhores condições de vida.

O protesto foi violentamente reprimido pelas tropas do czar, que abriram fogo contra os manifestantes. Centenas de pessoas morreram e muitas outras ficaram feridas. Esse episódio ficou conhecido como Domingo Sangrento. Depois do Domingo Sangrento, ocorreram outras revoltas envolvendo camponeses, soldados e marinheiros. Uma das revoltas mais marcantes foi iniciada pelos tripulantes do encouraçado Potemkin. Os marinheiros desse navio se rebelaram contra os maus-tratos e a péssima alimentação que recebiam. Ancorados na cidade de Odessa, os revoltosos pressionaram o czar a assinar o Tratado de Portsmouth, que pôs fim à guerra contra o Japão. O episódio foi representado no cinema, em 1925, pelo diretor russo Sergei Eisenstein (1898-1948). 


Rússia na Primeira Guerra Mundial

Em 1914, a Rússia envolveu-se na Primeira Guerra Mundial, combatendo alemães e austro- -húngaros. O governo czarista chegou a mobilizar 13 milhões de soldados. Mas o exército russo não estava preparado para enfrentar uma guerra tão longa e desgastante. Cerca de 1,7 milhão de soldados morreram nas frentes de combate.

Dois anos após o início da Primeira Guerra Mundial, a economia russa entrou em colapso. Os meios de transporte e a produção agrícola foram praticamente destruídos. Os preços dos alimentos subiram e a maioria da população sofreu com a fome.

De modo geral, as pessoas culpavam o governo do czar pelos problemas do país. Essa insatisfação motivou milhares de trabalhadores a realizar greves, que interromperam as atividades em grandes cidades como Moscou e Petrogrado (hoje São Petersburgo). Os protestos receberam o apoio de parte dos militares.




moscou capital da Rússia
Moscou é a atual capital da Rússia. Ali estão localizadas importantes instituições financeiras e científicas, bem como a estrutura governamental do país. No centro da fotografia, o Museu Nacional do Estado, na Praça Vermelha. Fotografia de 2018.




capital de império russo em 1917
A cidade de São Petersburgo foi fundada pelo czar Pedro, o Grande, no início do século XVIII, e serviu como capital do Império Russo por mais de 200 anos. Seu centro histórico é Patrimônio Mundial da Unesco. Na fotografia de 2016, a Catedral de Santo Isaac, maior igreja de São Petersburgo. 





Revolução de 1917 

A insatisfação popular, as derrotas na Primeira Guerra Mundial e a luta interna pelo poder – na qual sobressaíam socialistas e liberais – levaram o czar Nicolau II a abdicar do trono em 15 de março de 1917. Esse episódio pode ser considerado o momento inicial da Revolução Russa, que foi um longo processo.

 Governo provisório de Kerensky 

Após a queda do czar Nicolau II, foi instituído um governo provisório. O socialista moderado Alexander Kerensky (1881-1970) tornou-se o líder desse governo, que tomou providências como:
• redução da jornada de trabalho diária de 12 para 8 horas; 
• anistia aos presos políticos e permissão para os exilados voltarem ao país; 
• garantia das liberdades fundamentais do cidadão (direitos de expressão e associação). 

Porém, o governo provisório não resolveu os graves problemas que afligiam operários e camponeses. Além disso, manteve a participação russa na Primeira Guerra Mundial. 

Beneficiado pela permissão da volta dos exilados pelo czarismo, Lenin regressou à Rússia em abril de 1917 e passou a defender o fim do governo provisório, a retirada imediata da Rússia da Primeira Guerra Mundial, a nacionalização da propriedade privada e a formação de uma república dos sovietes (conselhos políticos de operários e soldados). Seus principais lemas eram: “Paz, pão e terra” e “Todo o poder aos sovietes”. 

 Governo de Lenin

 Em novembro de 1917 (outubro no calendário russo), os bolcheviques, liderados por Lenin e Leon Trotsky (1879-1940), partiram para o confronto armado contra o governo provisório. Ocuparam prédios públicos de São Petersburgo e depuseram o governo de Kerensky. Lenin se tornou presidente do Conselho dos Comissários do Povo e tomou diversas medidas, dentre as quais destacamos: 

a retirada dos russos da Primeira Guerra Mundial e a assinatura de um tratado de paz (Brest-Litovski) com a Alemanha

o confisco de propriedades privadas dos nobres e da Igreja ortodoxa (sem pagamento de indenizações) e distribuição de terras aos camponeses; 

a intervenção na vida econômica russa, com nacionalização de grandes bancos e fábricas e planejamento para todos os setores econômicos, incluindo a agricultura.

Vladimir Lenin
Vladimir Lenin foi um dos grandes nomes do socialismo russo


Guerra civil (1918-1921) 

Em 1918, pessoas ligadas à nobreza russa planejaram uma contrarrevolução para tirar os bolcheviques do poder. Essas pessoas contaram com o apoio econômico e militar dos governos de países como Inglaterra, França e Japão. 

Em resposta à contrarrevolução, os bolcheviques organizaram uma força militar chamada Exército Vermelho, formada por operários e camponeses. Essa força militar era liderada por Leon Trotsky, e sua cor estava associada aos ideais socialistas. O Exército Vermelho lutou contra o Exército Branco, que era comandado pelos generais da época da monarquia e cuja cor estava associada aos que se mantinham fiéis ao czarismo. 

Durante a guerra civil, o governo bolchevique adotou o chamado comunismo de guerra, marcado por medidas radicais, como a execução do czar e de sua família, o confisco da produção econômica (industrial, agrícola e comercial) para o abastecimento, a abolição da liberdade de imprensa e o julgamento sumário de opositores do regime. 

Em 1921, o Exército Vermelho venceu a guerra civil e o Partido Comunista (que reunia os bolcheviques) consolidou-se no governo da Rússia. A partir daí, os governos dos países ocidentais tentaram isolar a Rússia do cenário internacional. Para os grupos capitalistas, a revolução socialista representava uma ameaça à propriedade privada.


Construção da União Soviética

Depois da Primeira Guerra Mundial e de uma guerra civil, a Rússia ficou economicamente arrasada. O governo, liderado por Lenin, buscou recuperar a economia e, a partir de março de 1921, adotou medidas que ficaram conhecidas como Nova Política Econômica (NEP).

 Algumas medidas da NEP promoveram um retorno às práticas da iniciativa privada, como maior liberdade para a negociação de salários, permissão para o funcionamento de pequenas empresas privadas e autorização para os camponeses venderem sua produção agrícola depois de pagarem os impostos aos administradores do governo. Além disso, de acordo com a NEP, cabiam ao Estado a supervisão geral da economia e o controle de setores vitais, como o comércio exterior, o sistema bancário e as indústrias de base. 

A NEP obteve resultados satisfatórios. Estimativas feitas a partir de 1925 demonstraram que as áreas cultivadas no país foram ampliadas, o que permitiu maiores safras agrícolas e aumento dos rebanhos. Contudo, a produção industrial continuou estagnada devido à falta de modernas tecnologias e ao declínio do comércio exterior, em função do isolamento sofrido pela Rússia no cenário internacional.

CARTAZ DA REVOLUÇÃO RUSSA
Camaradas, arregacem as mangas para o trabalho!, cartaz criado por Nikolai Kogout em 1920. Nessa obra, o trabalho industrial é exaltado. Coleção particular.




Fundação da União Soviética

Em abril de 1922, Stalin (1879-1953) foi nomeado secretário-geral do Partido Comunista e prosseguiu combatendo a oposição política, incluindo as vozes discordantes dentro do próprio partido. Nesse mesmo ano foi fundada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Observe o mapa a seguir. 

MAPA DA RUSSIA NA REVOLUÇÃO DE 1917
Fonte: elaborado com base em ALBUQUERQUE, Manoel M. de et al. Atlas hist—rico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: FAE, 1986. p. 131.



A União Soviética passou a ser controlada por membros comunistas das diversas repúblicas. O órgão máximo do governo era o Soviete Supremo (Legislativo), responsável pela eleição de um comitê executivo (chamado Presidium) dirigido por um presidente com a função de chefe de Estado. Entre as principais tarefas do governo soviético estavam o planejamento da economia, a defesa militar das repúblicas e a definição da política internacional.

 Disputa pelo poder Após a morte de Lenin, em 1924, Trotsky e Stalin disputaram o poder na União Soviética. Trotsky e seu grupo defendiam que a revolução socialista deveria ser levada para todos os continentes. Defendiam, ainda, que o socialismo fosse construído como parte da revolução da classe proletária do mundo inteiro, e não apenas de um país.

 Essa era a tese da revolução permanente. Opondo-se a Trotsky, Stalin e seu grupo defendiam que a revolução socialista deveria se consolidar primeiro na União Soviética. Defendiam a construção do socialismo em um só país. A tese stalinista foi vitoriosa no XIV Congresso do Partido, que ocorreu em 1925, em Moscou.

Ditadura stalinista 

Mais tarde, em dezembro de 1929, Stalin, que era líder do Partido Comunista, passou a controlar os órgãos de decisão (burocracia) do partido. As ordens ditatoriais vindas da cúpula do partido eram inquestionáveis.

Seguiu-se, então, a perseguição a Trotsky, que perdeu suas funções no governo e, em 1929, foi expulso da União Soviética. Em 1940, quando estava exilado no México, Trotsky foi assassinado a mando de Stalin. 

Técnicos do governo soviético passaram a organizar a economia por meio de planos quinquenais (para cada cinco anos). Esses planos contribuíram para:

• desenvolver a indústria pesada – com destaque para a produção de aço –, que estava associada à exploração das reservas de carvão, ferro e petróleo; • ampliar a rede elétrica e mecanizar a agricultura;

• transformar as propriedades rurais em terras de uso coletivo (a chamada coletivização do campo); 

• promover a educação pública, ampliando o número de alunos, extinguindo o analfabetismo e construindo escolas e universidades. 

Dessa forma, a União Soviética se tornou uma das maiores potências econômicas do século XX. O lado cruel desse processo foi a implantação da ditadura stalinista, que perseguiu brutalmente seus opositores. 

No período de 1936 a 1938 ocorreram as chamadas depurações stalinistas, cujo objetivo era perseguir pessoas consideradas inimigas do Estado. Durante as depurações, milhares de cidadãos foram presos, torturados, mortos e condenados a trabalhos forçados em campos de concentração. No total, estima-se que o terror político da era stalinista tenha matado cerca de 500 mil pessoas, além de prender e torturar mais de 5 milhões de cidadãos. 

Visitante no Museu do Gulag, em Moscou, Rússia.
Visitante no Museu do Gulag, em Moscou, Rússia. Gulag era o nome do sistema de campos de trabalhos forçados da União Soviética. Fotografia de 2018. 



Algumas Leituras 👇

Disseram-me, querido irmão, que partiremos hoje ou amanhã. Pedi para ver-te. Disseram-me que era impossível; só posso escrever-te esta ca r ta: responde-me o quanto antes. Temo que tomes conhecimento de nossa sentença de morte. A caminho do Campo de Treinamento Semionov v i uma multidão; talvez tivesses recebido a notícia e sofresses por mim. Agora ficarás mais tranquilo no que me diz respeito. Irmão! Não estou desanimado nem deprimido. A vida é a vida em toda parte, a vida está em nós, não no que está fora de nós. Terei outras pessoas por perto, e ser um homem entre pessoas e continuar sendo um homem para sempre, não esmorecer nem sucumbir a qualquer infortúnio que me atinja – isso é a vida; essa é a tarefa da vida. Eu entendi isso. Essa ideia se incorporou a mim, penetrou em todo o meu ser. Sim, é verdade! A cabeça que criava, que vivia com a nobre vida da arte, que compreendia e aceitava as mais elevadas necessidades do espírito, essa cabeça já me foi arrancada. Restam-me as lembranças e as imagens que concebi mas ainda não formulei. Elas vão me dilacerar, é bem verdade! Mas restam- -me o coração e o mesmo ser que também pode amar, sofrer, desejar, recordar, e isso é vida, afinal. [...]

— Teu irmão Fiódor Dostoievski - USHER, Shaun. [Org.]. Cartas extraordinárias: a correspondência inesquecível de pessoas notáveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 170.

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Que Abalaram o Mundo, o mesmo título do livro do jornalista e revolucionário americano John Reed sobre os primórdios da revolução russa, culminando com a tomada do Palácio de Inverno, em São Petersburgo. Einsentein deixou-se fotografar sentado, displicentem e nt e , n o t r o n o q u e pertencera ao czar Nicolau. Poderia ser uma brincadeira, foi considerada uma provocação contrarrevolucionária. Os problemas prosseguiram no mesmo filme quando ele, fiel à história, quis destacar a impor tâ ncia de Trotsk y, Zinoviev e Kamenev no processo revolucionário. Eles já haviam caído em desgraça, sua participação foi eliminada na montagem, e o regime começou a suspeitar das propostas vanguardistas de Eisenstein, principa lmente de sua “montagem de atrações”. A consolidação de Josef Stalin no poder seria acompanhada por décadas de realismo socialista, um tipo de criação artística (no cinema, nas artes em geral) de uma mediocridade verdadeiramente aflitiva. Dentro desse novo quadro, a censura estética e política aplicou em Eisenstein os rótulos de “formalista” e “burguês”. Sua obra é constituída por relativamente poucos filmes, dos quais só dois ou três saíram como ele queria. Todos os demais sofreram a interferência da censura. Mas Einsenstein não pode ser avaliado só pelos filmes que fez. Ele deixou o legado de uma extensa produção teórica. Muita coisa do que disse ficou datada, mas seus textos discutindo o significado do cinema e da montagem continuam obras importantes de referência. Foi o representante máximo das vanguardas russas nos anos 1920, um dos grandes construtores da linguagem cinematográfica, tal como a entendemos hoje. David Wark Griffith, Orson Welles e ele. Sem essa santíssima trindade é possível que o cinema não tivesse evoluído da mesma forma e no mesmo ritmo.

MERTEN, Luiz Carlos. Cinema: entre a realidade e o artifício. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2005. p. 47-49.

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fábrica, ele parece brilhar, com uma aura dourada ao seu redor, pintada em uma silhueta vermelha sem nenhum detalhe, mas sabemos que é jovem e que olha com veemência para a frente. Fica claro que não representa um indivíduo, mas todo o proletariado, avançando rumo a um futuro mais brilhante que estão determinados a criar. A seus pés há uma engrenagem industrial e em sua mão, um martelo de trabalhador de fábrica. Com seu passo seguinte, pisará em um pedaço de solo árido, sobre o qual jaz quebrada a palavra KAPITAL, as letras espa lhadas sobre as pedras. O prato fora produzido vinte anos antes, em 1901, e permanecera em branco. O artista que fez o desenho, Mikhail Mikhailovich Adamovich, transformou a peça de porcelana imperial em uma lúcida e eficaz propaganda soviética. [...] Na Rússia de 1921, o ano do nosso prato, havia uma necessidade premente de mensagens de união e de esperança. O país estava mergulhado na guerra civil, em privações, secas e fome: mais de quatro milhões de russos morreram de inanição. Fábricas de propriedade dos trabalhadores, como aquela mostrada em nosso prato, produziam apenas uma fração do que geravam antes da revolução. Eric Hobsbawm vê a arte exemplificada pelo prato como um indício de esperança em meio a uma situação aparentemente desesperadora: “Ele foi produzido em uma época em que quase todas as pessoas envolvidas nesse processo passavam fome. Havia fome no Volga, e as pessoas morriam de tifo e de inanição. Era um momento em que se poderia dizer: ‘Este é um país prostrado no chão, como pode se recuperar?’ E creio que é preciso recriar, por meio da nossa imaginação, o ímpeto das pessoas fazendo isso e dizendo: apesar de tudo, ainda esta mos const r u i ndo esse futuro e aguardamos o futuro com enorme confiança”.

MACGREGOR, Neil. A história do mundo em 100 objetos. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013. p. 692-693.

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Dmitri Volkogonov (1928- -1995) foi coronel-general do exército soviético e, posteriormente, integrou uma comissão parlamentar que, entre 1991 e 1993, reviu o sigilo dos documentos e arquivos do Partido Comunista. A partir de sua experiência e pesquisa, Volkogonov escreveu o livro Stalin – triunfo e tragédia, do qual extraímos os seguintes trechos: Todos lembra mos de Stalin pelas fotografias, estátuas e monumentos onde ele frequentemente é mostrado com o braço erguido, apontando o camin ho, c om u m s or r i s o caloroso e olhos cintilantes. Poucos podem imaginar a profundidade de sua crueldade patológica, a ausência de bondade, a astúcia que se escondia por t rá s d aquela fachad a . Além dos líderes, políticos e de outros campos, e dos milhões de anônimos que sofreram em suas mãos, os próprios parentes não escaparam a sua insanidade. Um dos mais minuciosos pesquisadores da vida de Stalin, V. V. Nefedov, descobriu muitas coisas acerca do destino da família do tirano. [...] Stalin foi imparcial na sua crueldade: todos foram tratados igualmente, e ele se desinteressava pela pessoa tão logo ficasse “exposta”. É provável que só tenha havido uma exceção. Quando foi informado de que A lex a nder, irmão de sua esposa, fora sentenciado à morte como espião alemão, vociferou: “Vamos esperar que ele peça perdão.” Antes de sua execução, contaram a Alexander o que Stalin disser a , a o q u e r e p l i c o u : “Perdão de quê? Não cometi crime algum”. Foi devidamente fuzilado. Quando Stalin soube da maneira como o amigo de infância e cunhado morrera, disse: “Vejam como ele era teimoso: preferiu morrer a pedir perdão”.

VOLKOGONOV, Dmitri Antonovich. Stalin: triunfo e tragédia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004. p. 338-340.

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Extraído do Livro: 
CONTRIM, Gilberto Historiador,9º ano : Ensino Fundamental, anos finais/ Gilbert Cotrim, Jaime Rodrigues. - e.ed. São Paulo: Saraiva, 2018
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sexta-feira, 3 de março de 2023

Primeira Guerra Mundial

PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL 


mapa-da-europa-na-primeira-guerra-mundial
Mapa da Europa 1914, mapa satírico do artista alemão Walter Trier (1890-1951). Biblioteca Britânica, Londres, Inglaterra.

A feroz concorrência por mercados, as disputas coloniais e o nacionalismo exagerado estão entre as causas da rivalidade internacional que marcou a Europa no início do século XX. O clima hostil levou as potências mundiais a estabelecer uma política de alianças, formando blocos rivais. Essas tensões resultaram na Primeira Guerra Mundial. Após quatro anos de conflito armado, a Europa ficaria arrasada. As perdas humanas e econômicas foram imensas.

Tensões europeias

No início do século XX, disputas imperialistas e nacionalistas geraram tensões entre diversos países da Europa. As tensões chegaram a tal ponto que culminaram em um conflito armado de proporções mundiais jamais vistas até então. Por isso, os historiadores chamaram esse confronto de Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

mulheres na primeira guerra mundial
Mulheres trabalhando em uma fábrica de munições na Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Fotografia de 1914.


Imperialismo

A partir de 1850, as grandes potências europeias investiram na expansão de seus impérios, com o objetivo de conquistar mercados e territórios na África e na Ásia (imperialismo). Ao mesmo tempo, cada país industrializado protegia seu mercado consumidor e buscava dificultar a expansão econômica de seus concorrentes. Esse cenário gerou disputas, sobretudo, entre Inglaterra, França e Alemanha. 

No período de 1905 a 1911, por exemplo, os governos de França e Alemanha disputaram o território do Marrocos e quase entraram em guerra. Para resolver essa questão, em 1906 foi convocada uma conferência internacional na cidade de Algeciras, Espanha, na qual ficou decidido que o Marrocos continuaria sob domínio francês. A decisão não agradou aos alemães, o que provocou novos conflitos. Para evitar a guerra, o governo francês concedeu parte de seus domínios no Congo para a Alemanha. 

Pôster de propaganda da primeira guerra mundial
Pôster satírico de origem francesa sobre a Conferência de Algeciras, realizada em 1906, em que França e Alemanha disputaram territórios no Marrocos. Na imagem, o imperador alemão Guilherme II tem um papel com os dizeres “Caso marroquino” preso em seu capacete. O presidente francês, Émile Loubet, é retratado como uma cabra presa em um poço, como uma referência à fábula de La Fontaine A raposa e a cabra.

Nacionalismo 

No início do século XX, movimentos nacionalistas se desenvolveram na Europa, tais como o pan-eslavismo, o pangermanismo e o revanchismo francês.

• Os pan-eslavistas eram apoiados pelos governos russo e sérvio e pretendiam unir os povos eslavos da Europa Oriental. 

• Já os pangermanistas desejavam anexar à Alemanha os territórios da Europa Central habitados por povos de origem germânica. 

• O revanchismo francês defendia a recuperação dos territórios da Alsácia Lorena, região rica em minério de ferroo e carvão. Depois da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), os franceses foram obrigados a entregar esses territórios para os alemães, o que gerou ressentimentos nacionalistas. 

Os movimentos nacionalistas pretendiam reunir povos de matrizes culturais semelhantes em um mesmo Estado, o que motivou projetos de expansão territorial. Essa pretensão gerou conflitos, por exemplo, entre a Sérvia e a Áustria Hungria, que disputavam o território da Bósnia-Herzegovina. Em 1908, o governo da Áustria Hungria anexou a Bósnia-Herzegovina, contrariando os interesses da Sérvia.


Cartaz de origem francesa sobre o revanchismo francês, 1886. Na imagem, a Alemanha é representada como um polvo que espalha seus tentáculos por diversos territórios. O animal é repelido por um militar francês (à esquerda) e um russo (à direita). Biblioteca Nacional da França


Corrida armamentista

Diante do risco de uma guerra, as principais potências da Europa estimularam a produção de armas e ampliaram suas forças militares, dando início a uma corrida armamentista. Nessa época, foram desenvolvidas armas como o canhão de longo alcance, a metralhadora, o lança-chamas, a granada de mão, o tanque, o gás lacrimogêneo, o gás mostarda e o cloro. Pela primeira vez, aeronaves e submarinos foram transformados em instrumentos de guerra. 

Além disso, os comandantes militares das potências europeias receberam autorização para recrutar mais soldados. Quando explodiu a guerra, calcula-se que 65 milhões de pessoas foram mobilizadas para lutar.

Política de alianças Os governos de alguns países europeus se aliaram para enfrentar seus rivais. Depois de muitas negociações, a partir de 1907 a Europa estava dividida em dois grandes blocos: 

• Tríplice Aliança – era inicialmente formada pelas forças da Alemanha, da Áustria e da Itália, apoiadas por turcos e búlgaros. A Tríplice Aliança era também conhecida como aliança das potências centrais.

 • Tríplice Entente – era formada pelas forças da França, da Inglaterra e da Rússia. A Tríplice Entente contou ainda com o apoio de sérvios, belgas, gregos e romenos. Ao longo da Primeira Guerra Mundial, essas alianças sofreram alterações e algumas forças mudaram de lado, a exemplo da Itália, que passou para o lado da Entente em 1915, depois de receber promessas de compensações territoriais

Explode o conflito armado 

O estopim da Primeira Guerra Mundial ocorreu em 28 de junho de 1914, quando o arquiduque Francisco Ferdinando (1863-1914), herdeiro do trono austríaco, foi assassinado em Sarajevo. Essa cidade era a capital da Bósnia- -Herzegovina, que estava sob domínio do Império Austro-Húngaro. O autor do crime foi o estudante Gavrilo Princip (1894-1918), membro de um movimento nacionalista da Sérvia. Após o assassinato de Francisco Ferdinando, a Áustria declarou guerra à Sérvia. Devido à política de alianças, as forças militares de muitas nações entraram no conflito. Entre julho e agosto de 1914, os governos que compunham a Tríplice Entente e a Tríplice Aliança declararam guerra uns aos outros. Observe o mapa, que mostra a divisão política da Europa em 1914 e a organização dos países no contexto da Primeira Guerra Mundial.

mapas das alianças para a primeira guerra mundial
Fontes: elaborado com base em DUBY, Georges. Atlas historique: l’histoire du monde en 317 cartes. Paris: Larousse, 1987. p. 84; ATLAS da história do mundo. São Paulo: Folha de S.Paulo/Times Books, 1985. p. 249. 



Principais fases do conflito No início dos conflitos, uma parte da população europeia vivia uma espécie de euforia ligada à guerra. Entusiasmadas, muitas pessoas agitavam bandeiras, assistiam a paradas militares e aplaudiam os soldados que embarcavam nos trens rumo às batalhas. 

A euforia durou pouco tempo. Já a guerra se prolongou além do esperado. Nem todos tinham consciência do poder de destruição dos novos armamentos. Ao longo do conflito, a agitação inicial transformou-se em desespero. 

A Primeira Guerra Mundial durou quatro anos, que costumam ser divididos em três fases principais.

Primeira fase (1914-1915) – foi marcada pela movimentação das forças em confronto. Os alemães fizeram uma rápida ofensiva sobre os territórios da Bélgica e da França. Os franceses conseguiram organizar uma contraofensiva barrando o avanço sobre Paris. A partir daí, nenhum dos lados conseguiu vitórias expressivas, mantendo-se um equilíbrio de forças nas frentes de combate. 

Segunda fase (1915-1917) – foi marcada por uma guerra de trincheiras. Na fronteira entre Bélgica, França e Alemanha formaram-se linhas de ataque e defesa com trincheiras. Cada lado tentava manter sua posição e evitar que os inimigos avançassem. Essa fase foi penosa e cruel para os soldados. A Batalha do Somme (1916), por exemplo, resultou em mais de 1 milhão de combatentes mortos e feridos, sendo considerada uma das mais sangrentas da Primeira Guerra. 

Terceira fase (1917-1918) – foi marcada pela entrada dos Estados Unidos no conflito e pela saída da Rússia devido à Revolução de 1917. 

Brasil na Primeira Guerra Mundial 

A Marinha alemã, utilizando submarinos, afundou alguns navios estrangeiros alegando que essas embarcações levavam armas e alimentos para seus inimigos. Isso ocorreu, por exemplo, com os navios estadunidenses Lusitânia e Arábia e com o navio brasileiro Paraná. O episódio e outras razões levaram o governo brasileiro a declarar guerra à Alemanha. Em cooperação com os ingleses, os brasileiros patrulharam o Atlântico Sul e enviaram médicos e aviadores à Europa. 

trincheira da primeira guerra mundial
Fotografia, feita em 1915, de trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Na imagem, tropa alemã monta uma árvore de Natal.


Destruição e fome Para historiadores como Lionel Richard, os efeitos da guerra não foram sentidos apenas pelos soldados em combate. As populações civis também sofreram com a perda de seus familiares, a destruição de suas casas, a devastação das cidades e a escassez de alimentos. Na Europa, um dos maiores dramas enfrentados pela população foi a fome. Na Alemanha, por exemplo, era difícil comprar carne, ovos, cereais, leite, manteiga e batata. Esses produtos só eram vendidos no mercado clandestino e custavam tão caro que apenas os ricos podiam adquiri-los. Durante a guerra, os governos adotaram medidas de racionamento, restringindo a quantidade de alimentos que cada pessoa podia comprar. A população pobre enfrentava diariamente longas filas para conseguir um prato de sopa distribuído pelos militares. Diante da miséria, muitas pessoas ficaram desnutridas e vulneráveis a doenças como tuberculose, tifo, cólera e gripe. Essas doenças também provocaram milhares de mortes.


mulheres nas ruas alemães na primeira guerra mundial
Mulheres procuram alimento na Alemanha pouco depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Fotografia de 1918. 



A luta das mulheres Durante a guerra, a produção dos países em conflito foi direcionada para a fabricação de armas, munições, veículos de transporte, etc. Como milhões de homens participavam dos combates, um grande número de mulheres passou a trabalhar nas fábricas, especialmente na Inglaterra, na França, na Alemanha e na Itália. Terminada a guerra, muitas mulheres continuaram no mercado de trabalho e ampliaram sua luta por direitos, entre eles o direito de votar. Assim, as mulheres conquistaram o direito ao voto em 1918 no Reino Unido, na Alemanha e na Áustria; em 1919 na Bélgica; e em 1920 nos Estados Unidos. 


mulheres e o direito ao foto na primeira guerra mundial
Na fotografia de 1912, um grupo de mulheres sufragistas, que lutavam pelo direito ao voto, conversa diante de um comitê. Cleveland, Estados Unidos.




Fim da guerra 


O apoio econômico do governo dos Estados Unidos foi decisivo para a vitória da Tríplice Entente. A partir de 1918, os alemães ficaram isolados em suas fronteiras, sem condições de sustentar os combates. Em 11 de novembro de 1918, o governo da Alemanha assinou um armistício (acordo de paz) em situação desvantajosa. 

 Ao final da Primeira Guerra Mundial, cenas de destruição formavam a paisagem de diversos lugares da Europa. Os danos atingiram fábricas e plantações, casas e edifícios, pontes e estradas. As perdas humanas foram imensas. Alguns historiadores calculam que a Primeira Guerra Mundial deixou cerca de 9 milhões de mortos e 20 milhões de feridos. Isso sem falar nos milhões de pessoas que tiveram de fugir e abandonar as terras em que viviam.


Números de baixas da primeira guerra mundial
Fonte: elaborado com base em BARRACLOUGH, Geoffrey; PARKER, Geoffrey (Ed.). Atlas da história do mundo. São Paulo: Folha de S.Paulo, 1995. p. 248.



Pós-guerra e paz dos vencedores 

Após o fim da guerra, entre 1919 e 1920, houve conferências com representantes das 27 nações consideradas vencedoras. O principal local dessas reuniões foi o Palácio de Versalhes (França). Por isso, o conjunto de decisões tomadas ali ficou conhecido como Tratado de Versalhes. Esse tratado determinou que os alemães deveriam: 

• reduzir ao mínimo suas forças militares; 

• devolver a região da Alsácia-Lorena à França; 

• ceder alguns territórios aos governos da Bélgica, da Dinamarca e da Polônia; • dividir seu império colonial entre franceses e ingleses; 

• pagar uma indenização bilionária aos países vencedores. 

Nesse período, a situação política e social da Alemanha era instável. Pouco antes do fim da guerra, políticos social-democratas chegaram ao poder, dando início à República de Weimar (1918-1933). O nome Weimar é uma referência à cidade na qual foi elaborada a Constituição Republicana.

Não demorou muito para que as decisões impostas aos alemães provocassem reações intensas no país. Grande parte deles considerava as condições do Tratado de Versalhes injustas, vingativas e humilhantes.

manifestação na Alemanha na primeira guerra mundial
Alemães expulsos da Alsácia-Lorena após a assinatura do Tratado de Versalhes fazem manifestação em junho de 1919. 



No mapa seguinte as mudanças ocorridas na divisão política da Europa em 1921, ou seja, em um período imediatamente posterior à Primeira Guerra Mundial.

mapa político da Europa pós primeira guerra mundial
Fonte: elaborado com base em DUBY, Georges. Atlas historique: l’histoire du monde en 317 cartes. Paris: Larousse, 1987. p. 92-93. 



Liga das Nações

 Em 28 de abril de 1919, os membros da Conferência de Paz de Versalhes aprovaram a criação da Liga das Nações. Com sede na cidade suíça de Genebra, esse órgão internacional era formado por representantes de países de todos os continentes.

A principal missão da Liga das Nações era preservar a paz mundial, ideia sugerida por Woodrow Wilson (1856-1924), presidente dos Estados Unidos à época. 

No entanto, senadores estadunidenses vetaram a participação dos Estados Unidos na Liga das Nações, pois discordavam da fiscalização que os membros dessa entidade poderiam fazer sobre os tratados assinados após a guerra. Assim, o governo estadunidense desligou-se da Liga das Nações e manteve uma política internacional isolacionista. Além deles, outros países, como a Rússia, se afastaram da Liga e esse organismo se enfraqueceu.


PRINCIPAIS FASES DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL 


principais fases  da primeira guerra mundial








Extraído do Livro: 
CONTRIM, Gilberto Historiador,9º ano : Ensino Fudamental, anos finais/ Gilbert Cotrim, Jaime Rodrigues. - e.ed. São Paulo: Saraiva, 2018


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Guerra Fria


Início da Guerra Fria 


Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo foi marcado por muitas transformações. Durante mais de 40 anos, os Estados Unidos e a União Soviética se enfrentaram na economia, na ciência, na tecnologia, no campo ideológico, na espionagem, nos esportes olímpicos e até nas missões espaciais. Os Estados Unidos lideravam o bloco dos países capitalistas, enquanto a União Soviética liderava boa parte dos países socialistas. 

Esse período ficou conhecido pela expressão Guerra Fria, pois o conflito entre as superpotências não foi direto, com bombas e tiros, o que levaria a uma “guerra quente” entre os Estados Unidos e a União Soviética. Mas ocorreu de forma indireta em quase todos os continentes do mundo. Onde houvesse um conflito, os Estados Unidos apoiariam seus aliados e, por sua vez, a União Soviética apoiaria também seus amigos políticos. 

Conferências dos vencedores do conflito mundial 

Antes mesmo da rendição alemã, em fevereiro de 1945, os governantes das três principais potências aliadas (Churchill, da Inglaterra; Roosevelt, dos Estados Unidos; e Stalin, da União Soviética) reuniram-se na Conferência de Yalta, na Crimeia (região da Ucrânia, atualmente ocupada pela Rússia). O objetivo era estabelecer os rumos da política internacional após o fim da guerra. Para isso, definiram as bases da futura Organização das Nações Unidas (ONU) e as condições que seriam impostas aos derrotados na Segunda Guerra Mundial, especialmente aos alemães e japoneses. 

Meses depois, em julho de 1945, os líderes das potências vitoriosas se reuniram na Conferência de Potsdam, na Alemanha. Nessa nova conferência ficou decidido que o território alemão seria dividido em zonas de ocupação francesa, britânica, estadunidense e soviética. Apesar de alguns acordos, as divergências entre os antigos aliados ficaram evidentes.

 Em 1946, o inglês Winston Churchill referiu-se a esse fato dizendo que uma “cortina de ferro” havia descido sobre a Europa oriental. Stalin, por sua vez, defendia que o capitalismo era uma ameaça à paz mundial. Começaram ali as rivalidades e acusações que marcariam a Guerra Fria.

guerra fria
Líderes aliados reunidos na Conferência de Yalta. Sentados, da esquerda para a direita, Churchill, Roosevelt e Stalin. Atrás deles, em pé, os respectivos ministros de relações exteriores, Eden, Stettinius e Molotov. Fevereiro de 1945.


Muro de Berlim Em 1949, os países Aliados (Estados Unidos, Inglaterra e França) unificaram suas zonas de ocupação na Alemanha, fundando um novo país. Os soviéticos fizeram o mesmo, dando origem à divisão da Alemanha, que permaneceu, até 1989, da seguinte forma:
República Federal Alemã (RFA), ou Alemanha Ocidental, com capital em Bonn e sob a influência dos Estados Unidos; 
• República Democrática Alemã (RDA), ou Alemanha Oriental, com capital em Berlim e sob a influência da União Soviética. 

A cidade de Berlim também foi dividida em duas partes. A parte ocidental da cidade ficou sob o controle da RFA, enquanto a parte oriental permaneceu sob o controle da RDA. Entre 1948 e 1952, Berlim Ocidental foi reconstruída com o apoio econômico dos Estados Unidos. A cidade prosperava e atraía os moradores da parte oriental, onde a reconstrução era lenta. Entre 1949 e 1961, aproximadamente 2,5 milhões de pessoas mudaram-se do lado oriental para o lado ocidental de Berlim. Para impedir essa migração em massa, em agosto de 1961 o governo da Alemanha Oriental ergueu uma cerca de arame farpado de 150 quilômetros, separando os dois lados de Berlim.

A partir de 1962, a cerca foi substituída por um muro de concreto. Depois, o muro recebeu torres de vigilância e áreas minadas. As pessoas que defendiam o governo da Alemanha Oriental consideravam o Muro de Berlim algo necessário, um muro antifascismo para evitar influências ocidentais. Já as pessoas que apoiavam o regime da Alemanha Ocidental consideravam o Muro de Berlim um desrespeito e uma violação ao direito de ir e vir. Por isso, chamavam essa barreira de muro da vergonha. A divisão da Alemanha e de Berlim durou até 1989, embora contrariasse a vontade da maioria dos alemães.



guerra fria
Bettmann Archive/Getty Images. Jovens em Berlim Ocidental tentam conversar com familiares em Berlim Oriental. Fotografia do início dos anos 1960




guerra fria muro de Berlim
Ilustração artística representando o Muro de Berlim durante a Guerra Fria


Organização das Nações Unidas (ONU) No ano em que terminou a Segunda Guerra Mundial, representantes de 51 países, incluindo o Brasil, assinaram a Carta das Nações Unidas, que deu origem à fundação da Organização das Nações Unidas (ONU), com sede em Nova York. 

Os princípios contidos na Carta das Nações Unidas tratam da manutenção da paz e da segurança internacionais. Além disso, buscam promover a cooperação entre as nações por meio do desenvolvimento econômico, social e cultural e do respeito aos direitos humanos.

 Atualmente, a ONU possui diversos órgãos para implementar seus objetivos. 

• Assembleia Geral: órgão fundamental da ONU, composto por todos os Estados-membros da organização. 

• Secretariado: entidade que cuida da administração da própria ONU.

 • Corte Internacional de Justiça: órgão encarregado de decidir as questões jurídicas internacionais que são levadas à apreciação da ONU. 

Conselho de Segurança: órgão encarregado de promover a paz no mundo. Dentre os Estados-membros do Conselho de Segurança, cinco são permanentes: Estados Unidos, França, Reino Unido, República Popular da China e Rússia. Os membros permanentes são os únicos com poder de vetar medidas que envolvem segurança propostas à ONU. Por isso, eles conseguem impor seus interesses sobre a maioria das nações.



guerra fria prédio na onu
Sergi Reboredo/Alamy/Fotoarena - O edifício-sede da ONU foi projetado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer e pelo francês Le Corbusier. O prédio fica na cidade de Nova York, Estados Unidos. Fotografia de 2017



Direitos humanos Em 1948, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Essa declaração serviu de base para outros documentos que tratam dos direitos humanos e também como uma referência importante para a definição de normas constitucionais de alguns países. A Constituição federal do Brasil, por exemplo, incorporou alguns artigos inspirados nessa declaração. No entanto, muitos preceitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos ainda não saíram do papel. Então, cabe a todos nós lutar para que esses direitos fundamentais sejam cumpridos.



Artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948


Europa dividida Entre 1948 e 1951, países da Europa Ocidental como Inglaterra, França, Itália e Alemanha Ocidental receberam ajuda dos Estados Unidos para a reconstrução de suas economias, abaladas pela guerra. Conhecida como Plano Marshall, a ajuda visava tornar esses países uma espécie de modelo de reconstrução econômica capitalista e impedir o avanço do socialismo na Europa. 

Já na Europa Oriental, vigorou o socialismo soviético. Para controlar a região, o governo da União Soviética contribuiu com a instalação de governos dirigidos por partidos comunistas únicos. Esse processo atingiu Polônia, Alemanha Oriental, Hungria, Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia e Albânia.

Durante a Guerra Fria, também foram construídas alianças militares que dividiram os blocos rivais. Do lado ocidental, formou-se, em 1949, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), sob a liderança dos Estados Unidos. Do lado soviético, formou-se, em 1955, a aliança militar conhecida como Pacto de Varsóvia, sob a liderança da União Soviética. Observe no mapa os países da Europa membros do Pacto de Varsóvia e da Otan.


guerra fria mapas
Fonte: elaborado com base em ENCICLOPÉDIA das guerras. São Paulo: M. Books, 2005.


Corrida armamentista e espacial 

A chamada corrida armamentista levou ao rápido desenvolvimento de armas nucleares. Estados Unidos e União Soviética aceleraram a produção de armas de destruição em massa e, em 1950, as duas potências já possuíam a bomba atômica.

Conscientes da catástrofe que resultaria de uma guerra nuclear, movimentos pacifistas mundiais lutaram contra a Guerra Fria, que provocava outras competições entre os blocos rivais, como a corrida espacial.

 Um dos marcos da corrida espacial foi o lançamento do primeiro míssil intercontinental soviético, em agosto de 1957, que permitiria atacar qualquer país do mundo a partir de bases em território soviético. Em contrapartida, em dezembro de 1957, os estadunidenses também lançaram um míssil intercontinental, o Minuteman. 

 Em outubro de 1957, os soviéticos lançaram o Sputnik I, o primeiro satélite artificial do mundo. Em 1961, viria um novo triunfo soviético com o lançamento da nave espacial Vostok I, tripulada por Yuri Gagarin (1934-1968), o primeiro astronauta a fazer um voo em torno da Terra. Viajando na órbita terrestre, Gagarin foi o primeiro ser humano a ter uma visão externa do planeta. Impressionado, ele disse a frase: “A Terra é azul”. 

Em julho de 1969, os Estados Unidos enviaram a Apollo 11 à Lua. O astronauta Neil Armstrong (1930-2012) foi o primeiro ser humano a pisar no solo lunar. Ao dar os primeiros passos na Lua, ele também disse uma frase que se tornou famosa: “Este é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. 

A partir da década de 1970, os conhecimentos adquiridos na corrida espacial foram usados em diversos campos, como satélites de telecomunicação, meteorologia, espionagem e observação militar.

Revolução Cubana 

Na América Latina, ocorreu um caso de tensão extrema durante a Guerra Fria. Vamos entender alguns aspectos desse momento histórico. 

Em 1898, com o apoio militar dos Estados Unidos, Cuba tornou-se independente da Espanha. Após a independência, a economia cubana manteve seu perfil colonial, dependendo da produção e exportação de açúcar. 

Os Estados Unidos eram os principais compradores do açúcar cubano e exerciam forte influência sobre o país. Essa influência se manifestou até mesmo na Constituição cubana, com a emenda Platt. Essa emenda concedia ao governo dos Estados Unidos o direito de intervir em Cuba caso seus interesses fossem ameaçados. Além disso, em 1903, os estadunidenses negociaram a instalação da base militar de Guantánamo em território cubano, que funciona até hoje. 

 De 1934 a 1958, o político cubano Fulgêncio Batista (1901-1973) foi o “homem forte” de Cuba, mantendo-se leal aos interesses dos Estados Unidos. No exercício do poder em Cuba, Fulgêncio acumulou fortunas por meios ilegais e agia violentamente contra seus adversários.


Fonte: elaborado com base em ATLAS geografia


Socialismo em Cuba Em 1956, guerrilheiros cubanos comandados por Fidel Castro (1926-2016) e Ernesto “Che” Guevara (1928-1967) levantaram-se contra a ditadura de Fulgêncio Batista e formaram um grupo armado que a derrubou em janeiro de 1959. 

Com a tomada do poder, os revolucionários caminharam rumo ao socialismo. Diversas empresas estadunidenses tiveram suas propriedades estatizadas pelo governo de Cuba. Muitos cubanos, que discordavam do governo de Fidel, foram perseguidos e emigraram para os Estados Unidos. Surgiu, então, uma série de conflitos entre o governo de Fidel Castro e o estadunidense. 

Os momentos de maior tensão entre Estados Unidos e Cuba foram:

Invasão da baía dos Porcos – em 1961, uma tropa militar composta de exilados cubanos desembarcou na baía dos Porcos na tentativa de derrubar o governo do país. Essa tropa havia sido treinada e financiada pelo governo dos Estados Unidos. As forças leais a Fidel derrotaram os invasores e o governo cubano reforçou sua adesão ao bloco socialista; 

Bloqueio a Cuba – o governo dos Estados Unidos pressionou os países americanos para que apoiassem a decisão de suspender Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA), o que ocorreu em 1962. Além disso, impôs um bloqueio econômico, proibindo o comércio com a ilha;

Crise dos Mísseis – a aproximação dos cubanos com os soviéticos levou à decisão de instalar em Cuba mísseis nucleares soviéticos com capacidade para atingir os Estados Unidos. O presidente dos Estados Unidos, John Kennedy (1917-1963), reagiu à instalação dos mísseis ordenando à Marinha estadunidense que bloqueasse a ilha de Cuba, impedindo a chegada de navios soviéticos carregando mísseis. O episódio ficou conhecido como a Crise dos Mísseis, um dos momentos mais tensos da Guerra Fria. Diante do risco de um confronto direto entre Estados Unidos e União Soviética, os líderes desses países fizeram um acordo para a retirada dos mísseis de Cuba e de mísseis estadunidenses da Turquia, que também ameaçavam a União Soviética


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UIG/Universal Images/Fotoarena - Fidel Castro e Ernesto “Che” Guevara conversando. Fotografia de 1959



 Cuba contemporânea

A Revolução Cubana fragilizou a influência dos Estados Unidos na América Central. Seus líderes construíram o primeiro Estado socialista do continente americano. Fidel Castro implantou uma ditadura em Cuba, inspirada no regime soviético. 

Depois de décadas no poder, o governo cubano conquistou êxitos no campo social, como a eliminação do analfabetismo, a ampliação do acesso à saúde pública e a redução da taxa de mortalidade infantil.

 Entretanto, o país permanece como uma ditadura do Partido Comunista. Fidel Castro ficou à frente do governo por 49 anos. Em fevereiro de 2008, transferiu o poder a seu irmão, o general Raúl Castro. Fidel morreu em novembro de 2016, aos 90 anos de idade. 

Raúl Castro exerceu a Presidência de Cuba por 10 anos e, em abril de 2018, transferiu o cargo para Miguel Díaz-Canel. No entanto, Raúl permaneceu no comando do Partido Comunista e liderando as Forças Armadas. 

Nos anos da Guerra Fria, Cuba foi favorecida pelas relações comerciais com a União Soviética, que comprava cerca de 60% do açúcar produzido na ilha. Além disso, os soviéticos forneciam aos cubanos uma série de produtos subsidiados, como petróleo, veículos e equipamentos. Porém, a partir de 1991, com o fim da União Soviética, a situação econômica de Cuba se complicou. 

Em busca de alternativas, o governo cubano passou a investir mais intensamente na agroecologia e no turismo, cujas principais atrações são as praias e o patrimônio histórico da ilha. Também ampliaram-se as relações comerciais com a China, a Venezuela e outros países da América Latina. 

 Raúl Castro, durante seu governo, promoveu certa abertura econômica em Cuba, reduzindo o número de funcionários públicos, abrindo possibilidades de trabalho em lojas particulares e pequenos negócios e criando zonas de desenvolvimento para instalação de empresas estrangeiras. Em dezembro de 2014, Barack Obama e Raúl Castro anunciaram a retomada das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, depois de 53 anos de afastamento entre as duas nações. 


Ditaduras na América Latina 

Durante a Guerra Fria, boa parte da população dos países latino-americanos vivia sem acesso a moradia, saúde, educação, entre outros direitos humanos básicos. A miséria estimulava muitas revoltas e protestos populares.

O impacto da Revolução Cubana na América Latina contribuiu para fortalecer os grupos que defendiam o socialismo. Assim como ocorria em Cuba, as desigualdades sociais eram muito acentuadas nas demais regiões da América. Em contrapartida, outros grupos defendiam o modelo capitalista de desenvolvimento, argumentando que esse modelo valorizava a liberdade individual e o espírito empreendedor. 

Temendo que o exemplo de Cuba fosse repetido em outros países, grupos capitalistas e conservadores latino-americanos apoiaram golpes militares com o objetivo de impedir o avanço do socialismo.

Assim, setores do alto comando das Forças Armadas, apoiados pela elite civil, implantaram ditaduras em países latino-americanos. Em geral, esses golpes militares contaram com o apoio do governo dos Estados Unidos, que se empenhava em combater o socialismo na América. Entre esses regimes, podemos destacar os casos brasileiro (estudado no capítulo 10), chileno e argentino (que estudaremos a seguir)


guerra fria mapa
Fonte: elaborado com base em JOFFILY, Bernardo; JOFFILY, Mariana. Atlas hist—rico do Brasil.


Chile: golpe de 1973

Em 1973, com o apoio dos Estados Unidos, o general Augusto Pinochet (1915-2006) comandou um golpe militar no Chile que derrubou o governo socialista democraticamente eleito, em 1970, de Salvador Allende (1908- -1973). Um momento crucial desse golpe foi o ataque ao Palácio La Moneda, sede oficial do governo, e a morte do presidente Allende, que resistia às forças golpistas. O ataque começou com bombardeios aéreos à sede do governo e terminou com tanques e tropas do Exército.



guerra fria américa latina
Retrato de Salvador Allende durante conferência em Buenos Aires. Fotografia de 1973. No dia 11 de setembro de 1973, o presidente eleito decidiu resistir à invasão do Palácio La Moneda durante o golpe militar. Seu corpo foi encontrado no Palácio ao final do bombardeio. 



Política e economia na ditadura
  
O general Augusto Pinochet assumiu o poder e instaurou uma ditadura que durou 17 anos. Nesse período, o governo dissolveu partidos políticos, censurou a imprensa, prendeu, torturou e matou milhares de pessoas consideradas de oposição. Calcula-se que a ditadura tenha sido responsável pela morte de aproximadamente 3,2 mil chilenos. Além disso, quase 40 mil pessoas foram vítimas de torturas e prisões arbitrárias. No plano econômico, o governo de Pinochet adotou medidas neoliberais, privatizando empresas do Estado, cortando gastos sociais com saúde e educação, reduzindo salários e facilitando o ingresso de investimentos estrangeiros no país. Augusto Pinochet deixou a Presidência do país em 1990. No entanto, permaneceu no comando das Forças Armadas por mais oito anos. Depois, ocupou o cargo, que ele mesmo criou, de senador vitalício. Assim, usando dos artifícios de imunidade jurídica e preservação do poder, conseguiu livrar-se de centenas de processos judiciais que o acusavam de possuir contas secretas no estrangeiro e cometer graves violações aos direitos humanos. Pinochet morreu aos 91 anos, em dezembro de 2006.


guerra fria museu
Visitantes observam exposição no Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago, Chile. A instituição se dedica a preservar a memória das vítimas e das famílias afetadas pelas violações dos direitos humanos cometidas pelo Estado chileno entre 1973 e 1990. Fotografia de 2014. 

Argentina: golpe de 1976

 Em 1973, o veterano político e militar argentino Juan Domingo Perón (1895- -1974), então com 78 anos, venceu as eleições presidenciais do país, tendo sua esposa Isabel Perón como vice. No poder, Perón encontrou a Argentina mergulhada em uma grave crise econômica, com altas taxas de inflação e baixo poder aquisitivo dos trabalhadores. Com habilidade, Perón articulou um pacto social entre patrões e empregados, conseguindo controlar a inflação, valorizar os salários e desenvolver a economia. No entanto, em 1974, Perón morreu e a vice-presidente Isabelita, como era conhecida Isabel Perón, não conseguiu manter a estabilidade política e econômica do país em meio às rivalidades dos grupos de extrema direita e extrema esquerda. Aproveitando-se dessas agitações, os militares destituíram Isabelita por meio de um golpe de Estado em 1976.

Política e economia na ditadura

 Uma junta militar tomou o poder, fechou o Congresso, censurou os meios de comunicação e proibiu as atividades dos sindicatos. O governo militar implantou, segundo alguns historiadores, o terrorismo de Estado, organizando violenta repressão policial para perseguir seus adversários. Calcula-se que, nos anos da ditadura, tenham sido mortos cerca de 30 mil argentinos. No plano econômico, o governo militar apostou no neoliberalismo, reduzindo o tamanho do Estado, promovendo privatizações e abrindo as portas do país aos investimentos estrangeiros. Mas essas medidas não trouxeram bons resultados. A inflação permaneceu elevada, a indústria nacional se enfraqueceu, várias fábricas faliram e a dívida externa da Argentina cresceu assustadoramente. Tais políticas, de certo modo, repercutem no país até os dias atuais. Apesar do clima de terror imposto pelos órgãos de repressão do Estado, grupos de mães argentinas protestavam contra o desaparecimento dos filhos em frente ao Palácio do Governo, na Praça de Maio, em Buenos Aires. Elas ficaram conhecidas como as Madres de Plaza de Mayo, que encorajaram, aos poucos, outros movimentos sociais a lutar contra o arbítrio da ditadura. O fracasso econômico dos militares favoreceu, no início da década de 1980, a luta pela volta da democracia. A ditadura teve fim em 1983, com a posse do presidente Raúl Alfonsín (1927-2009), que, pouco tempo depois, ordenou a prisão dos antigos comandantes militares responsáveis pelos crimes bárbaros contra os direitos humanos.






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Organização pelos direitos da criança, Che Pibe, e Mães da Praça de Maio durante manifestação em Buenos Aires, Argentina. Há mais de quarenta anos, as Mães da Praça de Maio se reúnem pelo direito à memória e à justiça. 




Fim das ditaduras e neoliberalismo 

Nos anos 1970, alguns países governados por ditaduras militares na América Latina atravessaram um período de relativa prosperidade econômica, impulsionada sobretudo por fatores externos, como o aumento no preço das commodities. Aproveitando o crescimento econômico, muitos desses governos obtiveram créditos no exterior para financiar seu desenvolvimento, junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Estima-se que, entre as décadas de 1970 e 1980, a dívida externa dos países latino-americanos aumentou cerca de 1 000%. 

 No final dos anos 1980, a drástica queda no preço das commodities e a má administração pública contribuíram para que uma grave crise econômica se alastrasse pela América Latina. Essa crise econômica dificultou o pagamento das dívidas externas, enfraqueceu as ditaduras militares e levou à implantação de políticas neoliberais na região. 

Em muitos países latino-americanos, as políticas neoliberais foram impostas por credores internacionais como condição para a renegociação da dívida externa. 

De modo geral, o neoliberalismo defende a redução do tamanho do Estado e a ampliação do livre mercado e da iniciativa privada. A “receita” neoliberal defende, por exemplo, a privatização de empresas estatais, o controle da inflação e dos gastos públicos, a desregulamentação da economia, etc. Na maioria dos países da América Latina, a onda neoliberal ocorreu com a redemocratização, após o fim das ditaduras militares, com exceção do caso chileno. As políticas neoliberais foram implantadas, por exemplo: 

• no Chile pelo governo Augusto Pinochet (1973-1990), que reduziu essas políticas na América Latina, proibindo manifestações sindicais e privatizando a previdência social e algumas empresas estatais;

• no México pelo governo de Carlos Salinas de Gortari (1988-1994), que promoveu abertura econômica com os Estados Unidos, privatizações e estabilização monetária; 

• na Argentina pelo governo Carlos Menem (1989-1999), que impulsionou tarifas comerciais, controlou a inflação, diminuiu o número de funcionários públicos e fixou o valor do peso argentino em 1 dólar; 

• no Peru pelo governo de Alberto Fujimori (1990-2000), que privatizou minas e serviços públicos, controlou a inflação, realizou uma reforma tributária e reduziu os subsídios governamentais. Alguns economistas apontam que essas políticas tornaram os países da América Latina mais competitivos no mercado globalizado. Porém, em muitos casos, houve perdas sociais e trabalhistas, com aumento do desemprego e da concentração de renda. 




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Milhares de manifestantes se reúnem na Praça de Maio, em Buenos Aires, para protestar contra a visita da delegação do Fundo Monetário Internacional (FMI) à Argentina. Fotografia de 2000.










Extraído do Livro: 
CONTRIM, Gilberto Historiador,9º ano : Ensino Fudamental, anos finais/ Gilbert Cotrim, Jaime Rodrigues. - e.ed. São Paulo: Saraiva, 2018.  


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